Sento na bancada e da janela ganho, imediatamente, a entrada para a vida alheia.
Tenho uma incrível preferência pelo casal de velhos do 12º andar. Ele, sua ignorância, sua cueca puída, cadeira de plástico e o lazer oculto pela parede (que suponho ser uma tv). Ela com sua parcimônia, sua parte superior de um gasto babydoll e seus infindáveis cafés da manhã.
"Você sabe que dia é hoje?"
"Hoje é hoje! Por quê?"
Ela responde "Hoje é meu aniversário..."
Ele explode "PORRA! TODO ANO É A MESMA COISA..."
Neste momento, nos entreolhamos procurando uma lógica naquela expressão.
"VOCÊ VEM ME AVISAR ESTA HORA DA NOITE. SÃO 11 HORAS!"
Este foi o único diálogo captado durante todo ano mas, novamente, os mais velhos me ensinaram uma lição: usar meus futuros 60 anos para ser diferente, bem diferente.
Na manhã seguinte ela toma seu café e come seu pão.
Ele assisti o suposto telejornal matinal.
Eu vou trabalhar.
Nada como o cotidiano.