domingo, 27 de novembro de 2011

Primeira Impressão

Gosto de lembrar das primeiras impressões.

Gosto de lembrar da primeira vez que estive em algum lugar. Lembro, com prazer, de como caminhava na Lauro Muller e todos os meus temores naquela época, do amor que conseguia sentir.

Gosto de quem fui, quando ali estive,
gosto de quem serei quando lá estiver.

Gosto das primeiras impressões.

Gosto muito do primeiro encontro com as pessoas. De como esta impressão contamina todos os próximos contatos. De como se deve lutar para reconhecer um preconceito errôneo e de como e cresce ao fazê-lo. Lembro (ou lembram-me) de como conheci meus amigos e de quando permite que conhecessem parte de mim. Do primeiro segredo, primeiro sorriso, primeiro choro.

Gosto de quem eram, quando não eram,
gosto de quem serão, quando forem.

Gosto das impressões.

Gosto das impressões que criei, daquelas que não tive mas de alguma maneira sei como são. Gosto das impressões continuamente construídas, que são privadas do nosso comodismo habitual.

Gosto dos primeiros olhares, primeiros beijos. Primeiros cheiros, primeiros sabores. Primeiras músicas, primeiras palavras.

Gosto!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Me adiciona lá

Já caia a noite e Pipa (que poderia ser também chamada de São Thomé das Letras do RN) e o som do reggae caracterizava bem a noite. As meninas olhavam uns trapo quando me chamaram 'Venha cá meu bom!', 'Me ajuda a fazer a festa hoje a noite.'. Depois de uns 20 minutos, muito papo e pedidos femininos consegui levar o presente por um terço do valor.

Conversamos mais algum tempo e quando já íamos embora ele falou  'Me adiciona lá no Facebook, astral loko de rua'. Aline me vira indignadíssima e pergunta 'Mas desde quando hippie tem Facebook?'. Na mesma hora veio a resposta, 'Hippie são aqueles da década de 60. Eu sou micróbio de rua'.

Entenda Aline, os micróbios estão em todos os lugares.

Para quem não acredita: https://www.facebook.com/profile.php?id=100002587127736

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Embriaguez literária

Há quem diga que um texto vem como um parto, um filho, sua obra-prima. (Não que de fato, quem diz isso, tenha um filho ou seja mulher pra entender de dor)

Prefiro pensar como um belo porre.

O cheiro forte da vodka, vulgarmente chamada inspiração, aquece o pensamento e a arrepia a espinha. Você simplesmente sabe que aquela é a hora, não pode deixar passar. O gel gelado toca a língua como que quisesse dar o último aviso, sua última chance de largar o copo, sair da cadeira e trocar a caneta por algo menos desgastante.
O primeiro gole é o arrependimento de ter começado. Os próximos não terão o mesmo gosto. A frase sai meio no contrapé, com careta de que não vai dar certo e a inda não há chance do porre. Mas a embriaguez toma, infindáveis papos furados, a prática do diálogo às vezes retórico, retrógrado, onde qualquer assunto tem fundamento. Não demora e bate o sono do perdedor, com aquela letra vaaaaaaaaaaaaaaaarias vezes repetida ... de quem dorme sobre o trabalho.
Fim.
Ainda não.
Você acorda e tenta entender o que está a sua frente. Várias frases soltas, algumas até desconexas, uma sala bagunçada. E a borracha sumiu.
E assim mesmo você publica. Se a vodka é boa, nem a crítica do jornal te atrapalha. Nem mesmo existe ressaca moral. Mas se é ruim, a cabeça dói. Muito. Puta que pariu, como dói. Tonteira. Desgosto. Vômito às vezes, como as várias bolas de papel amassadas dentro (e fora) da lixeira. A cara dos críticos, como os porteiros de prédio, estão entre a inveja e a desaprovação.
Nada como um café. Um tapa na cara tem o mesmo efeito, se vindo de um braço conhecido, amigo, amante.
"Não deveria ter feito isso". Intimamente desapontador. Nínguém te compreende. Só você sabe que era necessário, inevitável, maior que você.
Clichê.
Mas que se foda, já está feito.

E o que sobre é a promessa de nunca mais beber de novo.
"Nunca, nunca mesmo, farei isso de novo"
Mas nada como outro texto...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cíclico*

Andei pensando que, talvez, a vida fosse melhor se a Terra não fosse redonda. Nesse momento, a idéia dos antigos me agrada mais: um planeta achatado, e carregado por uma tartaruga gigante. Além disso, ter o Sol girando ao nosso redor, é muito melhor do que ao contrário. Assim como faz a Lua.

Viver nesse planeta redondo com seus movimentos de rotações e translações me dá uma sensação de looping. Vejo-me obrigado a voltar sempre ao mesmo lugar! Se o mundo onde eu vivo é cíclico, cíclica será a minha vida...

Meu corpo é minha prova. Se minha barriga fosse lida num osciloscópio, desenharia uma senoide perfeita, num regular engorda/emagrece. Ou minha gastrite, que sempre avisa “Estamos em dezembro! O ano acabou!”.

Mas talvez nada reflita melhor do que meus erros. Faço besteiras, me ferro, me arrependo, corrijo, relaxo, volto ao ponto zero e, irracionalmente, faço tudo de novo. Às vezes num período maior, às vezes num menor, mas sempre volto ao ponto inicial! Como a Terra.

Num planeta achatado, não voltaríamos a ver as mesmas estrelas, elas vão ficando para trás. O céu iria mudar a cada dia, seguindo o rumo que a tartaruga iria tomar. E num passo lento! No cautelar passo da tartaruga... A vida seria mais lenta, para aproveitarmos cada minuto!

A alegria seria vivida intensamente, como um sorriso eterno. E assim também as tristezas. Iríamos errar longamente, nos arrepender profundamente, e depois, no próximo passo da tartaruga, ficaria tudo para trás.

E eu não iria saber que daqui há um mês (ou uma semana), vou fazer a mesma merda que fiz ontem!


Thiago Moura
https://www.facebook.com/thiagosmoura

* Texto convidado, lido e apreciado. Todos os méritos para Thiago Moura, com todos seus pseudônimos e apelidos.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Coma pelo menos uma banana

Acordei, com uma mistura de sono e dor, em um mau humor tangível.
"Filho, você está em cima da hora."
Vesti a roupa da noite anterior e saindo falei:
"Estou indo, na volto tomo café."
"Coma pelo menos uma banana."
"Obrigado mãe."
"Mas coma a banana"
"Não quero"
Despencando-a e me oferecendo diz:
"Então, leve pelo menos."
"Não quero banana!"
O tom da minha voz a  fez abaixar os olhos  e colocar a fruta sobre a bancada. A alguns anos teria me feito comer (ou mandado que enfia-se a banana no cu) mas os ombros caídos feriram-me muito.


Aprendi, que as vezes, basta sorrir, dizer obrigado e aceitar.