quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Janela

Sento na bancada e da janela ganho, imediatamente, a entrada para a vida alheia.

Tenho uma incrível preferência pelo casal de velhos do 12º andar. Ele, sua ignorância, sua cueca puída, cadeira de plástico e o lazer oculto pela parede (que suponho ser uma tv). Ela com sua parcimônia, sua parte superior de um gasto babydoll e seus infindáveis cafés da manhã.

"Você sabe que dia é hoje?"
"Hoje é hoje! Por quê?"
Ela responde "Hoje é meu aniversário..."
Ele explode "PORRA! TODO ANO É A MESMA COISA..."

Neste momento, nos entreolhamos procurando uma lógica naquela expressão.

"VOCÊ VEM ME AVISAR ESTA HORA DA NOITE. SÃO 11 HORAS!"

Este foi o único diálogo captado durante todo ano mas, novamente, os mais velhos me ensinaram uma lição: usar meus futuros 60 anos para ser diferente, bem diferente.

Na manhã seguinte ela toma seu café e come seu pão.
Ele assisti o suposto telejornal matinal.
Eu vou trabalhar.

Nada como o cotidiano.

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