Ainda não me acostumei aos 30, mas há tempos vejo que minha memória não é a mesma. O HD está ficando cheio e as uns blocos são apagados a revelia. Não há escolha, não há modo seguro, nem proteção contra gravação. As memórias simplesmente se vão.
Hoje já não lembro mais da primeira vez que entrei no mar com a minha Morey Boogie Mach 10, nem da primeira pedalada na minha Caloi Cross Freedom. Lembro de todos shows que assisti, mas não com detalhes (e tenho que puxar bem da memória). Nem sei qual foi o melhor. Mas tenho guardado muitos momentos que me emocionaram.
Recentemente, a cabeça foi ocupada por problemas que não podia resolver e decisões que não deveria tomar. Ainda assim, na ultima semana lembrei de uma coisa, que me fez gastar mais do que eu devia e me proporcionou um desses momentos emocionantes, que espero não esquecer. Lembrei da primeira vez que escutei The Smiths!
Numa das muitas férias passadas na Região dos Lagos, quando os anos noventa se iniciavam, ao lado da minha irmã e meu primo, pouco mais velho. De uma fita cassete, escutei a introdução de This Charming Man.
A fita era do meu primo, tinha feito uma coletânea do The Smiths, que também tinha “How Soon Is Now”, “There is a light that never goes out”, “Ask”... Ele ainda veio a me apresentar Spy vs Spy, Metallica, e tantas outras. Mas The Smiths me marcou muito, e me acompanhou por esses trinta anos.
E essa lembrança me fez gastar o dinheiro que consertaria meu Xbox, numa só noite. Adiei meu prazer solitário por ela, pois sabia que a teria. E quando a sua vida segue um caminho atribulado, esses eventos ganham um valor maior.
Os últimos anos me proporcionaram bons momentos de encontros. Pude ver músicos que eu admirava há tempos, e não tinha esperança de assistir ao vivo. E esse prazer é algo inigualável! Ver a belíssima Cat Power e Misfits no Circo, Patty Smith e Yeah Yeah Yeahs na Marina, Bad Religion na Fundição, e agora Morrissey. Voz que há tantos anos, meu ouvido se habituou a ouvir. E, uma das mais antigas na minha mente.
E deu-se o show. Um bom show, que nos primeiros versos, me lembrou que sou o mais velho da turma, possivelmente, o primeiro a morrer. Que me fez falta ouvir que ele não temia ninguém, pois tinha sangue irlandês e do coração inglês. E percorreu grandes momentos em “You have kill me” e “Everyday is like Sunday”.
Do meio pro fim, me deu o que prometera: uma puta lembrança!
Tá certo que o show era do Morrissey, mas foram as musicas do The Smiths que realmente me emocionaram. Ouvir os humanos cantando que merecem ser amados, como todos os outros foi incrível. E o coro de milhares, saudando a luz que nunca se vai, pagou cada centavo, valeu cada minuto!
Espero que o tempo não apague a imagem, o som e sensação de vivenciar a voz da fitinha cassete, cantando as mesmas musicas que ouvi, há vinte anos atrás.
Thiago Moura
https://www.facebook.com/thiagosmoura
* Texto convidado, lido e apreciado.
Sensacional o texto, não tem como ler e não escutar The Smiths logo em seguida.
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