sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Embriaguez literária

Há quem diga que um texto vem como um parto, um filho, sua obra-prima. (Não que de fato, quem diz isso, tenha um filho ou seja mulher pra entender de dor)

Prefiro pensar como um belo porre.

O cheiro forte da vodka, vulgarmente chamada inspiração, aquece o pensamento e a arrepia a espinha. Você simplesmente sabe que aquela é a hora, não pode deixar passar. O gel gelado toca a língua como que quisesse dar o último aviso, sua última chance de largar o copo, sair da cadeira e trocar a caneta por algo menos desgastante.
O primeiro gole é o arrependimento de ter começado. Os próximos não terão o mesmo gosto. A frase sai meio no contrapé, com careta de que não vai dar certo e a inda não há chance do porre. Mas a embriaguez toma, infindáveis papos furados, a prática do diálogo às vezes retórico, retrógrado, onde qualquer assunto tem fundamento. Não demora e bate o sono do perdedor, com aquela letra vaaaaaaaaaaaaaaaarias vezes repetida ... de quem dorme sobre o trabalho.
Fim.
Ainda não.
Você acorda e tenta entender o que está a sua frente. Várias frases soltas, algumas até desconexas, uma sala bagunçada. E a borracha sumiu.
E assim mesmo você publica. Se a vodka é boa, nem a crítica do jornal te atrapalha. Nem mesmo existe ressaca moral. Mas se é ruim, a cabeça dói. Muito. Puta que pariu, como dói. Tonteira. Desgosto. Vômito às vezes, como as várias bolas de papel amassadas dentro (e fora) da lixeira. A cara dos críticos, como os porteiros de prédio, estão entre a inveja e a desaprovação.
Nada como um café. Um tapa na cara tem o mesmo efeito, se vindo de um braço conhecido, amigo, amante.
"Não deveria ter feito isso". Intimamente desapontador. Nínguém te compreende. Só você sabe que era necessário, inevitável, maior que você.
Clichê.
Mas que se foda, já está feito.

E o que sobre é a promessa de nunca mais beber de novo.
"Nunca, nunca mesmo, farei isso de novo"
Mas nada como outro texto...

Um comentário:

  1. Nem sei quantas vezes já fiz o mesmo. Não sei quantas vezes já escrevi o mesmo.

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